Você sabe que dieta pode melhorar a saúde do seu fígado?

O fígado, o maior órgão maciço do corpo humano, desempenha um papel vital na manutenção da saúde, sendo responsável pelo metabolismo de nutrientes, a eliminação de toxinas, a produção de bile e o armazenamento de vitaminas e minerais. Sua capacidade de sintetizar proteínas, como a albumina, é fundamental para o transporte de substâncias no sangue. Além disso, regula fatores de coagulação, fatores hormonais, metaboliza a bilirrubina e produz bile, contribuindo para o funcionamento adequado do organismo.

Responsável por filtrar e metabolizar todas as substâncias ingeridas, sejam medicamentos convencionais, fitoterápicos, alimentos, bebidas ou outras substâncias, o fígado desempenha uma função crucial.

Além de ser suscetível a doenças específicas que o afetam diretamente e com frequência, o fígado também pode ser impactado por doenças sistêmicas devido à sua importância para a saúde geral do corpo.

Atualmente, a principal doença crônica que afeta o fígado é a doença hepática esteatótica metabólica, mais conhecida como esteatose hepática ou gordura no fígado. Essa condição é caracterizada pelo acúmulo de gordura em mais de 5% das células hepáticas.

A esteatose hepática atinge cerca de 30% da população mundial, e estudos indicam um aumento crescente de casos tanto no Brasil quanto no mundo. É uma doença que requer atenção especial, pois geralmente não apresenta sintomas até estágios avançados, mas pode evoluir para casos graves de cirrose hepática e câncer de fígado, eventualmente exigindo um transplante hepático. Além disso, o agravamento das complicações hepáticas aumenta o risco cardiovascular desses indivíduos.

A esteatose hepática tem relação direta com obesidade e sobrepeso, sedentarismo, diabetes e dislipidemia, e assim como 80% das principais doenças crônicas conhecidas, tem origem nos maus hábitos de vida.

Mas será que a ciência tem evidências suficientes para afirmar que tipo de dieta ou quais alimentos podem beneficiar diretamente o fígado, proteger o órgão de doenças e até reverter doenças hepática crônicas?

Dietas equilibradas e com perfil antiflamatório, com oferta adequada de calorias de acordo com necessidades de consumo de cada indivíduo, têm efeito de proteger e melhorar a saúde do fígado.

Desta forma, qualquer dieta com restrição de calorias e que determine controle do peso pode determinar benefícios no fígado, embora os estudos revelem que além da restrição calórica, a composição específica dos nutrientes tem impacto no resultado da intervenção na saúde hepática.

Quando consideramos a esteatose hepática, principal doença crônica do fígado, o melhor tratamento inclui o controle dos parâmetros metabólicos como glicose, colesterol e triglicerídeos, assim como controle do peso. Perdas de peso acima de 10% do peso inicial, de maneira sustentada, permitem o controle da doença, de modo que reeducação alimentar é o principal recurso.

Entretanto, quando analisamos os padrões dietéticos disponíveis, a maioria dos estudos mostra que o maior benefício na saúde do fígado se revelou em indivíduos que adotaram um padrão de alimentação mediterrânea, caracterizado por: dieta rica em vegetais variados, baixa ou nenhuma ingestão de alimentos processados, consumo regular de carboidratos complexos, dieta rica em gorduras saudáveis como ácidos graxos monoinsaturados e polinsaturados (MUFA e PUFA, presentes no azeite de oliva extravirgem, nuts e peixes), com baixo consumo de carne vermelha e laticínios e com controle das calorias, de modo a objetivar também o controle do peso do indivíduo.

Além de promover saúde do fígado, a dieta com padrão mediterrâneo é cardioprotetora o que determina benefício fundamental para estes indivíduos, uma vez que pacientes com gordura no fígado comumente apresentam aumento da gordura visceral e aumento do risco cardiovascular.

Outra vantagem, por sua composição, tem maior aderência dos indivíduos a longo prazo, o que evita o efeito de oscilação do peso (efeito sanfona), comum em dietas muito restritivas e que pode promover aumento da inflamação e das complicações no fígado.

Há também estudos mostrando que a dieta mediterrânea, por seus efeitos antiflamatórios, confere neuroproteção e proteção contra cânceres, que surgem, frequentemente, como resultado de processos inflamatórios persistentes em diferentes órgãos.

Os vegetais variados, que são a base da dieta mediterrânea, são fontes de múltiplas vitaminas e por oferecerem energia com baixo aporte de calorias, são protetores para o fígado. O consumo de frutas frescas também é protetor para o fígado, desde que não sejam consumidas em quantidades exageradas, uma vez que o excesso de calorias, mesmo considerando calorias provenientes de alimentos saudáveis, pode determinar depósito de gordura no fígado.

A dieta mediterrânea é rica em vitaminas e polifenóis, substâncias que atuam para renovação celular do órgão e diminuem o estresse oxidativo, que é a causa da inflamação crônica no fígado e suas complicações.

Ainda como recurso alimentar para proteger o fígado, recomenda-se o consumo de 3 ou mais xícaras de café ao dia, que por suas propriedades antioxidantes, protege o fígado dos efeitos da progressão da inflamação causada pela gordura ou outras eventuais agressões.

Por outro lado, qualquer dieta hipercalórica, especialmente se for rica em gorduras saturadas, carboidratos refinados, alimentos processados e bebidas adoçadas, contribui para fornecimento de substrato energético que será depositado no fígado na forma de gordura, e, consequentemente, acarretará comprometimento da saúde do fígado.

Quanto ao consumo regular de álcool, quando ocorre em quantidades acima de 20g/dia (1 lata de cerveja ou 1 taça de vinho) para mulheres e 30g/dia (2 latas de cerveja ou 2 taças de vinho) para homens, está claramente associado ao aumento do risco de complicações crônicas no fígado, embora não tenhamos dados para afirmar que quantidades menores que estas, ingeridas regularmente, sejam seguras para a saúde como um todo, uma vez que o álcool pode aumentar o risco de cânceres em diversos órgãos e outras lesões crônicas com doença renal e cardíaca e promover progressão de doenças do fígado em indivíduos com predisposição genética ou outras doenças hepáticas coexistentes.

Como já dito anteriormente, o fígado tem a função de filtrar e metabolizar as substâncias absorvidas pelo trato digestivo e, desta forma, alimentos processados e riscos em aditivos, podem representar um risco para saúde deste órgão.

Todas estas recomendações servem como orientação geral para uma alimentação mais saudável e hepatoprotetora, mas é muito importante ressaltar que a orientação nutricional deve ser individualizada e realizada através da avaliação e acompanhamento de profissional especializado, o nutricionista, para que condições especificas de cada indivíduo sejam levadas em consideração e para que se garanta o melhor tratamento para cada paciente.

Thais Guaraná – Médica Hepatologista
Professora de Gastroenterologia e Hepatologia da Faculdade de Medicina da UFF
Membro Titular da Sociedade Brasileira de Hepatologia
Certificação Internacional em Medicina do Estilo de Vida